O cagarro
(Calonectris diomedea)
ou cagarra, também conhecido como pardela-de-bico-amarelo,
é uma ave muito característica das ilhas dos Açores. Os seus cantos nocturnos são
muito peculiares, alguns parecidos com o choro humano. É uma das aves mais
antigas da Terra e pertence à ordem dos Procellariiformes,
família dos Procellariidae. Os Açores possuem cerca
de 60% da população mundial de cagarros da subespécie
C.d. borealis,
mas devido a ser muito vulnerável a predadores terrestres e às actividades do
homem, esta espécie está em regressão a nível mundial, sendo muito importante
garantir a sua protecção.
Os cagarros
são aves marinhas adaptadas para a vida no alto mar (aves pelágicas), a sua
coloração é escura na parte superior e clara na inferior. De asas castanho-acizentado e compridas deslocam-se em voo planado
durante grandes distâncias sem esforço. O bico é amarelo, forte, com marcas
escuras e as patas são curtas, rosadas e cinzentas. Alimentam-se de peixes e
lulas, e são frequentemente vistos em associação com golfinhos e atuns que
movem perseguições a cardumes de peixes, sendo por isso utilizados, pelos
pescadores, para localização de cardumes de atum. Podem atingir os 40 anos de
idade.
Em Março, depois de passarem
alguns meses nos mares do Sul, regressam aos Açores para iniciarem um período
reprodutor de oito meses, geralmente no mesmo local do ano anterior.
Reproduzem-se em colónias situadas nas falésias costeiras e ilhéus, que chegam
a reunir centenas de aves. Mas o cagarro é fiel, cada
casal mantém-se, geralmente, para toda a vida.
Faz o ninho em cavidades nas
rochas ou em buracos escavados no solo que podem ter alguns metros de
profundidade. Em Maio é depositado um único ovo branco, característica de todos
os Procellariiformes. A tarefa de incubar o ovo é
dividida pelos dois membros do casal e dura cerca de 50 dias, cumprindo, a cada
um turnos bem definidos de 2 a 8 dias. Em finais de Julho dá-se a eclosão do
ovo, nascendo uma cria cinzenta cheia de penugem que, devido ao alimento rico
em óleo, fornecido pelos progenitores, cresce rapidamente e multiplica, num
mês, 10 vezes o seu peso inicial.
Em finais de Outubro, já com
plumagem de adulto e abandonados nos ninhos pelos progenitores, os juvenis são
movidos a lançarem-se ao mar. Os cagarros orientam-se
aparentemente pelas estrelas, mas ao iniciarem o seu primeiro voo,
principalmente em noites nubladas, são atraídos e encadeados pelas luzes das
povoações e automóveis sendo muitos mortos por colisão e atropelamento. Outros,
possivelmente partirão para o Atlântico Sul onde depois de atingirem a maturidade sexual (estado
adulto) com cerca de 7 a 8 anos regressam aos locais onde nasceram para
iniciarem novo ciclo.
Os Açores são mundialmente a zona
mais importante para o cagarro, que está protegido
por leis nacionais e internacionais (Convenção de Berna–Anexo II, Directiva Aves-
Anexo I e Decreto-Lei n.º 140/99 de 24 de Abril). É proibido capturar, deter,
ou abater ilegalmente estas aves e destruir ou danificar os seus habitats.
O cagarro,
além de ter sofrido uma grande redução nos últimos séculos, actualmente tem
como principais causas da sua vulnerabilidade, a pressão e degradação exercida
sobre o litoral, que leva à perda do seu habitat natural. A captura de adultos
e juvenis para obtenção de isco, alimentação ou puro vandalismo, os
atropelamentos devido a encadeamentos por luzes, e o facto destas aves chocarem
apenas um ovo e se reproduzirem só um vez por ano.
Todos nós podemos e devemos
proteger esta ave!
Se encontrar cagarros
nas estradas coloque-os numa caixa, liberte-os junto ao mar durante o dia ou à
noite numa zona escura. Não capture adultos ou juvenis, não destrua os seus
ninhos e comunique às autoridades as práticas ilegais.
É nesta altura do ano que
encontramos muitos cagarros nas estradas. Não são
mais que indivíduos juvenis perdidos na sua rota e uma forma de o evitar, será,
à semelhança do sucedido na ilha do Corvo em anos anteriores, a redução da
intensidade da iluminação pública junto ao mar. Deste modo todos
contribuiríamos para a preservação desta maravilhosa ave.
Dê a conhecer aos outros o que
aprendeu sobre este simpático visitante das nossas ilhas, que já por cá andava
antes da chegada do Homem.
Mário Laranjo